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- Essas letras “acontecem”, hein? – perguntei repentinamente, sempre caindo na armadilha de concluir pensamentos em voz alta.  
- Quê?? – ela obviamente respondeu, finalmente parando de olhar pros lados no bar.  
- Porra, ninguém pega minhas perguntas de primeira. Eu quero saber se essas letras “acontecem”. 
- Que letras, cara? Faz uns 5 minutos que a gente só bebe e olha. Aliás, eu bebo. Tu sumiu bem na minha frente.  
- É que eu tava viajando  no seguinte: as letras, as letras pop, tipo assim, tá certo que tem “inspiração”, poesia, o caralho a quartro, mas tem que Ter algum fundo de verdade, alguma COISA tem que Ter acontecido na vida do cara para ele se sentar a bunda na cadeira para escrever. 
- Ou “da” cara. – ela disse, tomando mais um gole. 
- Ou “da” cara, claro. Girl power, u-hu. – praticamente soletrei o “u-hu”. Ela riu. Ironia por migalhas, meu escambo. 
- Tá, mas tenta ser mais específico, em que banda tu tava pensando quando resolveu dizer isso? E tem mais, CLARO que tem que Ter acontecido alguma coisa com o fulano ou beltrana, ninguém escreve nada do nada.  
- Hhmmm...não. Não é assim, tô falando de letras que contam histórias, não letras que rimam amor com dor.  
- .... 
- Tá, parece óbvio o que eu tô dizendo. Parece. Mas eu não quero saber só se as histórias acontecem, eu quero saber por que elas parecem tão...hã...reais e ao mesmo tempo estão tão longe do que acontece comigo, contigo, com o garçom ali do lado. 
- Mas em que banda tu pensa quando fala isso? -  ela parece realmente interessada num assunto que eu não consigo conversar nem no ICQ.  
- Numa banda que eu já ouço há mais ou menos um ano e o pessoal tá meio que descobrindo agora. 
- Iron Maiden? – e soltou uma gargalhada. 
- Duh. Não. Eu tava pensando no Belle & Sebastian. 
- Ahhhnnnnnnn....a banda low-fi dos publicitários innnnn – e esticou aquele “n” com a língua batendo na arcada dentária superior e riu. 
- Ouch. Fomos atingidos, base.  
Ela sorriu e apoiou o cotovelo na mesa e a cabeça na mão. Mão e cotovelo pertencentes ao mesmo braço, é bom que se diga. 
- Eu gosto daquele som – continuou – É assim meio descompromissado e tão...hã...almofada-no-chão. 
- Sim, Belle & Sebastian é muito almofada-no-chão. 
- Mas o que tu quer saber sobre as letra deles? 
- Quero saber como viver aquelas histórias que misturam ingenuidade e uma angústia, digamos que, resolvida – gesticulei aspas para “resolvida”. Sei lá minha vida anda muito fila no banco e dois filmes por fim de semana. No vídeo, às vezes. 
- Não acredita em tudo que tu ouve – mulheres e seu dom de jogar um dardo no nosso balão. A dona “belle” ou o seu “sebastian” também perdem tempo em algum lugar. Eles também aguentam tios e piadas e domingos e telefonemas de vendedores de curso de idiomas. Bom, talvez não curso de idiomas, but you know what i mean. 
- Eles não são um casal, são 8 pessoas. 
- Por favor.... 
- Tá, tá. Mas...porra, é do caralho aquele clima que as músicas deles passam. E tem mais, o Morrissey nunca entrou numa fila de banco. 
- Entrou sim – ela respondeu rindo. Ela me adora. Ela só me acha engraçado e inofensivo. Ela me adora. Ela só me acha folclórico. Ela me adora. Ela tá pensando em outro. – Tá, mas o que é que o Morrissey tem a ver com tudo isso? Ele é bem mais realista que o Belle & Sebastian se tu quer minha opinião. “Hang the DJ, hang the Dj, hang the DJ...” 
- Tudo bem, Morrissey é mais “na cara”. Mas ele é um observador como os Belle. 
- Gabriel, o pensador também é observador – Sorriu – gotcha, gurizinho! – Pronto. “Gurizinho”. Agora pra ouir “tu é muito querido, adorei o papo-a gente se vê” é só uma questão de tempo. 
- Golpe baixíssimo da tua parte. 
- Eu sabia que tu ia enlouquecer com esta...hahaha.... 
- ..... 
- Ai, não fica assim. Tô amando a conversa, tu sabe que eu adoro música. Até sei de cor um trechinho de uma música do Belle 
- Não acredito. 
- Eu não sou só este rostnho anasalado, meu filho. 
Ela olhou para baixo e enquanto descascava a pintura Brahma chopp da mesa, cantarolou em falsete, com um jeito envergonhado. Killer. Oscar clip. Simplesmente Killer. 
“Judy wrote the saddest song 
She showed to a boy in school today 
Judy where did you go wrong? 
You used to make me smile when I was down”  
E seguiu um pouco mais. 
- Viu? – ergueu os olhos. 
- Vi – foi tudo que eu consegui dizer. De repente eu queria que houvesse uma legenda debaixo de mim pra entregar todo o resto que estava desorganizado e pedindo passagem – uma legenda daquelas de clube de cinema, em letra datilografada e tremendo. 
- Sabe o que eu acho – esticou as mãos na minha direção, se espreguiçando. Meu deus, now what? – Eu acho que tu já tá numa história. Uma Belle & Sebastian Tale. Contos Low-fi. Olha pra gente. É isso.  Songs and stories. Amor e dor meu caro, no fundo mesmo, é amor com dor. Refrões fáceis e melodias de assoprar no ouvido. Olha pra gente. 
- Eu tarzan, você jane. – arrisquei. Nas mãos e na frase. 
- Jane, não, Judy. 

“Judy and the dream of horses” está no cd “If you’re feeling sinister”, dos Belle.