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Hanna acordou tentando promover mais uma de suas eleições internas. 
Hoje era dia bom ou dia mal? Dia de ligar para as pessoas certas, receber e-mails 
tocantemente inesperados, respirar bom senso e planejar a vida em minutos? Ou seriam 
reminscências no café da manhã, ligação-relatório para a mãe cada vez mais longe dela 
e combinações socialmente descartáveis? Ela desejou não compreender mais as coisas 
assim. Mas não havia muita fuga. Seu momento unemployed e sua rotina de caminhadas 
não a tiravam de perto do seu ponto de fuga. Muitas revistas importadas sobre a mesa 
da sala. Nada muito diferente de semana passada ou dois meses atrás. Uma revista 
brasileira ali, sim, isso seria estranho. Esqueceu da autocrítica quando o telefone tocou. 
Era cedo mas já era sua mãe. Não era a melhor hora. São poucas as melhores horas quando se quer 
revisar a vida enquanto se procura pilhas para o headphone e o telefone toca. E é sua 
mãe. Forever sua mãe. Doces introduções e paciência buscada na última gaveta. And so it 
goes, provalmente voltará a ligar à noite para então ter um dia todo de 
surpreendente everyday life pra contar. Se sentiu bem quando deu-se conta que não perdeu o 
jeito de ser tão atenciosa. Ambiciosa. Dormiu com esta palavra cintilando feito aquelas 
placas feitas de lâmpadas flourescentes em bares populares. Era seria mesmo ambiciosa? A 
pilha de referências pop que a  acompanhavam estava realmente construindo algo 
novo dentro dela? Relutava em aceitar a explicação rasteira de que a 
ausência de compromissos oficiais fazia sua bolsa de valores fechar em baixa em 
dias como este. É mais do que isso, ela repetia em silêncio. Eu sei que é mais. 
Resolveu repousar de sua rave filosófica,  terminou o café, ligou para uma amiga e marcou 
encontro para o almoço. Foi para sua caminhada matinal. Os passos foram ritmados e em 
velocidade, como se tudo que ficasse para trás desabasse como nos precipícios de 
desenhos animados.  Voltou para o apartamento, seu irmão deixou dois recados na 
mesa. Scaneou os olhos sobre os textos que não alteraram seu dia já demais 
centrado nasmesmas coisas.  Resolveu ligar a tevê enquanto secava o cabelo depois 
do banho. MTV. Na dúvida, MTV. Música baiana. É, a eleição do dia apontava um 
vencedor. Pegou o controle remoto, apontou para o rebolado de 29 polegadas e 
apertou o botão,falando sozinha pela primeira vez no dia: "Vai te embora!"
O barulho a fez correr para janela como se acordara naquele instante. 
Procurou uma batida de carros ou quem sabe uma perseguição com tiros, seria algo bem 
ranqueado no relatório noturno para a mãe. Mas nada. Uma tranquila manhã de verão 
e buzinas na rua. Voltou-se para a sala, quem sabe o barulho viesse da porta, mas 
não pôde deixar de notar a tela da tevê. A dona do rebolado jazia. Estática. A 
música não se ouvia. Ergueu o volume. Nada. Chegou perto da tevê. A mulata sangrava. 
Imóvel. "Que clip é esse?" Um tanto receosa, pegou o controle remoto novamente. Trocou de canal. Programa de culinária/fachada de venda de produtos de cozinha. Voltou para a MTV, que exibia intervalo comercial. 
Retornou ao gordo da culinária. "Idiota", disparou. E desta vez, com olhos atentos, pôde ver o 
apresentador sorridenteexibindo a faca dos mil e um cortes tombar para trás da mesa se  espatifando no balcão.
Mais uma vez o volume desapareceu. Hanna soltou o controle remoto no 
chão com umgrito. "Calma", ela pensou. "Foi muito sol na caminhada. Vou pedir pra 
alguém ligar a tevê." Ligou para amiga.  
"Bota na MTV!"
"ih, tá, calma. Já ouviu falar em ´oi, tudo bem?`"
"guria!!!"
"tá, peraí!.."
Enquanto o silêncio no telefone acompanhava os passos da amiga até a 
tevê, Hanna voltoua trocar de canal. Notícia extraordinária da morte de cantora de axé 
music famosa.Desligou e desconectou o telefone. A tevê permanecia ligada no canal de 
notícias. Hannaencolheu-se no sofá, podia ouvir sua respiração profunda e trêmula. Riu 
brevemente de simesma. Olhou para a capa da "Esquire" em cima da mesinha da sala e 
simulou um tirocom a mão e fazendo o barulho com a boca, mirando em Leonardo de 
Caprio. Buscou umaaspirina no quarto. Tomou coragem, voltou à sala e voltou a surfar 
pelos canais, sempensar muito, sem desejar nada. Chegou a pensar que tudo havia sido um 
delírio e então parou em um canal de filmes. Uma cena na prisão. Guarda 
bigode-e-nazi-penteadochutando um prisioineiro, sem a menor piedade. "Filho da puta". Estava 
feito de novo.Guarda ao chão. O poder. Hanna percebeu que não seria a aspirina, o 
almoço com a amiga ou uma caminhada que iriam lhe tirar o que lhe deram naquele 
momento. O poder de justiçar o mundo via tevê a cabo. Nunca tanta confiança havia 
visitado sua mente numa fração de segundo. Procurou o canal de novela mexicana. A 
atriz sederramava em lágrimas. Nem teve tempo de confessar para a filha que não 
era sua mãe.Plump. Lá estava a madresita no chão. TV Debate. Um pastor de 
tele-igreja. O polegar não tremia mais. Pro inferno com o Pregador.  Ela poderia permancer ali 
todo o dia,limpando as cidades, estados e países da escória da comunicação,
política, esporte, artes,  whatever. Era afinal esse era seu grande, a 
eleição do dia tinhareservado uma reviravolta espetacular. Detonou mais meia dúzia de 
celebridadesdetestáveis. Ambição. Agora eles vão ver. Colocou um cd do Sex Pistols 
do seu irmão que jamais imaginou que iria escutar: substituiu aos berros "I AM THE 
ANTICHRIST" por "I AM THE CABLE NIKITA!" Apresentador de programa de calouros. 
Encarou-o RobertDeniricamente: "Are you talking to me?", e deu um pulo no sofá 
atirando e rindo.