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luzes. todas rigorosamente acesas. o barulho frenético dos carrinhos e seus solavancos pararam há horas. nenhum carro a não ser o meu no estacionamento. nenhuma luz senão a que vem de dentro do supermercado. 24 de dezembro. estou encostado no meu carro relutando entre acender um cigarro ou caminhar até  o orelhão para ligar. acabo rindo internamente. Orelhão é o apelido do meu irmão. meu último natal foi lá. Não existe outra maneira de sobreviver a um Natal senão ficando perto da piazada. tento lembrar das gargalhadas dos meus sobrinhos quando eu fingia que descobria que estava sendo roubado no videogame. Tento lembrar do que eu fiz com este último ano. Tantos lugares diferentes, tantos quilômetros tentando despachar o sofrimento em quinta marcha. Para cada lâmpada de natal  que o supermercado ostenta eu lembro de um lugar que nos encontramos. O engraçado é que aquela lâmpada queimada ali coincide com o dia que tudo estilhaçou de vez. Depois de todo esse tempo o que foi curado mesmo? É provável que você tenha feito suas compras de natal bem feliz num lugar parecido com este. Feliz porque chegou a época de parecer feliz, então pra você é o momento ideal de mostrar todo aquele conforto de não precisar procurar meu ser fragmentado  e decidido a não fornecer pistas. E, mesmo assim, me considero muito mais decidido que você, sempre me considerei. 
Vou caminhando até o telefone, ah, orelhão, eu precisava de uma boa briga das nossas de novo. 
I think we're dreaming the same dream 
I'll let you be in  my dream 
If you show me your dream 
tell me what it means 
cartão telefônico. plect. porra, que demora. 9 unidades. tiro. desplect. volto pro carro, ligo o rádio e só ouço locutores berrando em programas gravados feliz natalicídio pra todo mundo. buzinas na autoestrada aqui perto. certo, eu concedo uma noite despretenciosamente feliz pra todos vocês. 
ligar e desligar. 
não ligar. 
ligar e esperar tocar. se tocar, desligo. 
não ligar. 
não ligar. 
ligar pro voice-mail. 
damn. 
as luzes do super. 
eu queria comprar todas essas árvores enfeitadas e te cercar mais uma vez.  
nós no meio das árvores de plástico, rindo do inusitado mais uma vez. 
plect. 
dedos pressionam sem volta. 
chiado 
"oi, sou eu, não tô, ouve o bip e diz tudo, beijo". 
o universal recado que sempre parece ser pra mim. 
claro que é de propósito. 
desplect. 
quando você pensa que colocou sua vida em foco é que as coisas começam a ficar sem forma. hmm. eu devia escrever horóscopos. 
plect. 
dedos beijando quadriláteros numerados. 
fast little kisses inside my car 
 trying to find who we are 
chiado. 
"oi, sou eu..." 
tloc. gravação interrompida. she. 
- alou? 
- oi... 
- oi!! 
- tudo? 
- tudo, e tu? 
- feliz natal. 
- (risada curta dela) sim, claro, tu que adooora esse dia. 
- ... 
- onde tu tá? 
- longe, num estacionamento dum super que eu não consigo dar jeito de entrar. 
- pra que tu quer entrar? 
(adoro o jeito estupefato) 
- não sei, deve ser um belo passeio pra se fazer. 
- ih, tá... 
- tá, até. 
- .... 
- até mais - insisto. 
- ..... 
- ..... 
- não foge assim. (posso ver os olhos semi-cerrados dela) 
- fala... 
- fala tu, deixa eu te ouvir. 
- não dá pra falar muito mais que isso. não assim. 
(puta merda, uma unidade) 
- é, eu sei. 
- ... 
- o que tu vai fazer antes do ano-novo? 
- compras. 
 
 primeiro trecho em inglês: "step into my world", hurricane#1