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LOVE REAR ITS UGLY HEAD 
Fade in 
- Eu estou procurando a grande aventura - disse ela, mirando a janela que dava de frente para um campo de futebol sintético.  
- A grande aventura? - respondeu ele ainda na cama, e por um momento parando de procurar o interruptor de luz. 
- É. A grande aventura. A canção pop perfeita. O chesseburger interminável. Chame como quiser. 
- Tu nunca consegue fugir desses momentos depois do sexo, né? E eu sempre me sinto um merda ouvindo isso, não me pergunta por quê.  
- Eu não tô falando sobre sexo, é suprasexo esse meu assunto.- voltou-se para ele. 
- Suprasexo? Só um pouquinho. Essa é nova.  Qual foi a da semana passada, “ultravontades”? Era isso, “precisamos renovar nossas  ultravontades”. Tu anda traduzindo alguma letra da Cher? 
- Adoro tua ironia - ela disse, aninhando-se no peito dele pela última vez. 
Fade out. 

Fade in 
“- Vai, Paulinho, passa, passa!!!” - Carlos gritou em vão. Eu já não estava no jogo. Aos 9 anos, minha infância acabou naquele exato momento. O jogo transcorria tranquilo, mas quando eu vi aquela garota descendo de um corcel (that 70´s car), com seu rosto pronto para se fragmentar em doídas lágrimas, daquelas que a gente não tem a menor pressa para tirar do rosto, muita coisa mudou. Minha maior dor aos 9 anos costumava ser quando o inter perdia um jogo, e ainda assim eu a transformava em revolta para não deixar meus amigos se resfolgarem rindo. Mas naquele exato instante, eu troquei o futebol pela contemplação. Mal sabia que seria uma troca irreversível de prioridades. Ela desceu e parou no canteiro que dividia a avenida, logo em frente à minha casa. Ela tentou se controlar mas começou a chorar timidamente. Daí a eu entender que ela tinha sido abandonada, traída, desnorteada, enganada, era outra coisa. Eu não tinha a menor idéia. Naquele exato momento, eu só sei que me conectei com aquela cena. Algo que me tirou de onde eu estava. Ela permanceu longos 3 minutos naquele choro parcelado com olhadelas sem convicção para atravessar a rua. Ao meu redor o jogo tinha acabado, afinal, meu passe não dado tornara-se bola para o adversário e gol deles. Lembro de Carlos gesticulando na minha frente mas não consegui sequer me desculpar. O pátio então esvaziou e eu ainda a olhava, sem saber ao certo o que estava sentindo. Ela então suspirou. Eu podia sentir aquele mundo desabando em cima dela. Somehow, eu sentia.  Ao se preparar para atravessar a rua, nos observamos. Ela meio que sorriu e afastou uma lágrima retardatária, atravessou a rua com um leve pique de meia dúzia de passos e alcançou a calçada e desapareceu da minha vista.” 
- Não deixa de ser uma maneira interessante de me dar o fora - disse ela, terminando de ler o texto sentada em frente ao computador.

 
 
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