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Ouvia cantoras brancas. White chick folk singers. Sempre antes de entrar em ação, precisava ouví-las. Ele nunca comentava isso, mas quem resolvia contar acaba por ouvir as mesmas lições de moral: “isso não tem nada a ver com você, Mack, com suas raízes. Onde está seu orgulho, brotha?” Foda-se. Pouco importava sua cor, o que lhe fazia bem eram aquelas vozes e aquelas baladas que acalmavam e preparavam para cada segundo de agressão pay-per-view que viria pela frente. Olhou para o relógio na parede. Seu treinador entraria a qualquer momento. E bem naquele momento derradeiro antes de escutar os gritos da equipe, o apupo do ginásio, a correria dos fotógrafos e o tiroteio dos flashes, ele se fazia a única pergunta que precisava desaparecer assim que o gongo soasse: “pra onde eu tô indo?” 
Olhou para suas luvas vermelhas e reluzentes, estranguladamente amarradas. Sua concentração pré-luta era completamente falsa hoje. Ele não pensava no adversário, em táticas, em como encaixar a esquerda no baço ainda no primeiro round. Não fazia nenhuma questão de ser badboy fora do ringue. Sua velocidade feita de momentos precisos, a agilidade de esgrimista e sua grandeza diante da imprensa, empresários e adversários faziam-no mais parecer um golfista ou um jogador de bilhar daqueles que aparecem na ESPN2. Ele queria ser blasé como eles. Queria mostrar praquele bando de mafiosos do boxe que ele era diferente. Igual nas porradas, mas diferente se olhassem com mais atenção. 
“Sim, mas e daí? Isso até agora não aumentou meu salário, me fez entender meu pai ou me apresentou a garota certa.” Odiava quando tudo tomava contornos lineares na sua cabeça. Chega de conclusões que se definem em “sim”e “não”. Era por isso que ele se esforçava para ler depois dos 25 tudo que não tinha lido até então. Além das cantoras brancas, adorava começar um livro novo antes de uma luta, assim brigava como nunca só pensando em continuar lendo logo em seguida no ônibus. Não tinha conseguido terminar nem o primeiro capítulo do escolhido de hoje, “Tila, a Moscovita”, a história de uma garota pertecente à geração russa pós-gorbachev.  
Muitas interrupções. Algum patrocinador desejando boa sorte, última refeição, batidas na porta, “meia-hora!”, “15 minutos”, “10”. Até no ringue o interrompiam, justo quando a luta estava ficando boa e ele genuinamente estava curtindo e cantando internamente enquanto aproximava seu adversário de sua merecida alma gêmea, o solo.  
Encarou as luvas de novo, reluzentes e  esconendo dedos e mãos. Ele levava horas para se reacostumar com suas  mãos nuas depois da luta: os objetos, as pessoas pareciam estar sempre a uma distância maior quanto tocados. Tocava, mas não atingia. Tentou explicar para o seu treinador uma vez e recebeu uma garrafa de vodka como resposta. “Vai ajudar”, disse o Gordo. 
Desligou o cd player e, apesar de acostumado, tirou os fones com óbvia dificuldade. Agora seria a qualquer segundo. 
Thump, thump, thump. 
“Mack? Hora do show!” – o Gordo abriu a porta.  
Sem dizer nada, Mack caminhou vagarosamente. No corredor que levava ao centro do ginásio, os tradicionais gritos da equipe. Achavam que os “vamos lá” e os “kick his ass” da vida ainda surtiam efeito nele. Hoje eles eram só uma estranha e disforme massa sonora. Nem os tapas nas costas e a voz do Gordo colada em seu ouvido com as últimas instruções pareciam fazer algum sentido. Era assim quando  seu pai gritava com ele depois de tantos anos de inferno em casa. Simplesmente não fazia mais efeito. Ele saia e ia treinar depois de ser chamado de inútil, vagabundo e escroto.  
Entrou na arena principal do ginásio e os flashes e os berros e a ovação e os seguranças e  Gordo ainda teorizando. Olhou novamente para as luvas, elas pareciam maiores, pareciam pulsar de tão reluzentes. Aquilo o seduziu. Levantou os olhos só na hora de subir no ringue. E  não os baixou mais até que derrubou o adversário pela terceira e definitiva vez. Os abraços, as câmeras, os braços erquidos pela equipe, o anúncio da vitória por mais um cretino socado numa gravata borboleta, a multidão em torpor. Tudo sempre igual.  
“Estou lutando a luta errada”, falou para Gordo, enquanto o treinador entre risadas e champagne começava a tirar suas luvas no vestiário.” 
“Mack, teria sido ainda mais fácil hoje se você tivesse acordado logo no primeiro assalto. Pô, a direita do cara nem ia pegar em você e...” 
Mack colocou sua mão direita, novamente em contato com o ar livre, no ombro do seu treinador. 
“Eu vou tirar umas férias.” 
Gordo sabia que Mack demorava para tomar decisões e ainda por cima expressá-las em voz alta. Mas sabia também que quando isso acontecia era com calma, confiança e definição.  
“Vou Ter que arranjar outro mestre da canhota...” 
“São férias, Gordo, apenas férias.” – mas Mack percebeu que algumas coisas ele não conseguia esconder, nem debaixo das luvas vermelhas, nem debaixo dos flashes ou das cantoras brancas.  
“O que você vai fazer, Mack? Eu digo, da vida?” 
“Tudo que se pode fazer quando se tira as luvas, eu espero”. 
O Gordo sorriu seu sorriso de gordo. Mack terminou de comemorar a vitória com a equipe e terminou “Tila, a moscovita” no ônibus a caminho de Memphis, onde deixou suas luvas repousando com seu pai.